Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Boavista 2 - Gil Vicente 0: VITÓRIA JUSTA NUM JOGO DE CONTRASTES: PRIMEIRA PARTE EXCELENTE, SEGUNDA SOFRÍVEL

Boavista – William Andem; Rui Duarte (Guga, aos 69min), Hélder Rosário, Cadú e Areias; Tiago e Lucas; Manuel José, João Pinto e Diogo Valente (Paulo Jorge, aos 53min); Fary (William Souza, aos 78min)


Treinador: Carlos Brito


Gil Vicente  – Jorge Baptista; Paulo Arantes, Gregory, Rovérsio e João Pedro (Gouveia, ao intervalo); Braima (Carlos Carneiro, ao intervalo), Bruno Tiago e Luís Coentão; Rodolfo Lima, Leandro Netto (Carlitos, aos 80min) e Williams


Treinador: Ulisses Morais


O Boavista regressou às vitórias na Liga, com um triunfo caseiro sobre a sempre complicada equipa do Gil Vicente, que não perdia no Bessa desde 2001. Curiosamente, o resultado foi o mesmo dessa tarde de Maio em que os "axadrezados" deram mais um passo decisivo para o histórico título que haveriam de conquistar.


ANÁLISE


Como o título desta crónica indica, o encontro de segunda-feira à noite, num Estádio do Bessa Século XXI, atendendo ao dia e hora da partida, razoavelmente composto de público, marcou um contraste algo acentuado entre as duas metades do jogo. A primeira parte foi simplesmente excelente, com a equipa a fazer uma circulação de bola fluída, rápida, sem grandes dificuldades nas variações de flanco e triangulações (tendo como principais protagonistas João Pinto e Manuel José). O 1-0 ao intervalo pecava por escasso. Já a etapa complementar foi diferente. A entrada de Carlos Carneiro (não tanto de Gouveia) veio trazer imensas dificuldades, principalmente a Areias, que "viu" Leandro Netto, primeiro, descair para o seu flanco e, depois, Carlitos, obrigando Lucas, já que Diogo Valente estava demasiado apático, a trabalho defensivo suplementar. Mas, após cerca de 25 minutos sofríveis na segunda parte, com um (surpreendente) ascendente gilista, o Boavista, sobretudo com a entrada de Guga e o recuo de Manuel José para lateral-direito, "acordou" na fase final e conseguiu voltar a pressionar a formação barcelense, acabando por chegar ao 2-0.


UMA PRIMEIRA PARTE DE GRANDE QUALIDADE


Começando pela análise em termos tácticos, Carlos Brito apresentou o habitual 4-2-3-1, com liberdade para João Pinto (uma constante nos jogos em casa), e duas novidades: Manuel José actuava pela primeira vez no flanco direito do ataque ao serviço do BFC, em partidas oficiais, e Lucas fazia dupla com Tiago no meio-campo (jogando o ex-academista mais descaído para a esquerda), tendo-lhe sido concedido o papel de distribuidor de jogo. E a verdade é que, na primeira parte, Lucas executou esse papel com grande qualidade. Quanto ao Gil Vicente, Ulisses Morais apostava num 4-3-3 baseado num meio-campo de combate (com Braima a fazer a marcação individual a João Pinto) e três surpresas: Carlos Carneiro, Marcos António e Carlitos, figuras de "proa" deste Gil Vicente, não foram titulares (talvez como forma de castigo pela derrota por 2-0 na jornada anterior, em Coimbra).


Início encontro e, após um "susto", logo aos 3 minutos, causado por (mais uma...) desatenção defensiva na sequência de um canto, o Boavista assumiu de imediato o domínio da partida. Após Manuel José, aos 5 minutos, se ter isolado na direita, aproveitando um livre rapidamente apontado por Diogo Valente, e não ter conseguido cruzar em boas condições, os "axadrezados" adiantaram-se no marcador, três minutos depois. Rui Duarte, solicitado por um lançamento lateral cobrado por Manuel José, cruza de pé esquerdo para o interior da grande área. João Pinto, em boa posição, prepara-se para cabecear, mas é impedido de o fazer por Braima, que o agarrou. Grande penalidade clara, que Fary converte com sucesso. Apesar de ter advinhado o lado para o qual o "castigo máximo" foi apontado, Jorge Baptista, guarda-redes do Gil Vicente, foi impotente para travar o remate colocado do avançado senegalês. O Boavista inaugurava o marcador cedo, o que lhe fornecia todas as condições para uma exibição tranquila e segura. Assim foi no primeiro tempo. Os gilistas praticamente deixaram de existir em termos ofensivos. O Boavista era superior, jogava um futebol apoiado, com alguns momentos deliciosos, em pleno meio-campo adversário. Os dois laterais apresentavam-se extremamente ofensivos, o que permitia, no caso de Rui Duarte, que Manuel José pudesse fazer diagonais para perto da grande área, combinando com João Pinto (quer Manuel José, quer JVP estiveram, uma vez mais, em grande nível) e, relativamente a Areias, compensar a noite "não" de Diogo Valente. João Pinto e Fary eram os primeiros homens a fazer o "pressing" quando a equipa não tinha a bola em seu poder (uma pressão mais alta do que, por exemplo, no encontro anterior, em Vila do Conde), embora Manuel José pudesse revezar um dos dois nessa função (foram, aliás, uma constante as trocas entre os quatro jogadores do sector defensivo). Falta ainda referir uma peça fundamental na estrutura "axadrezada": Lucas. Ao contrário do que acontecia na época passada (em que jogava demasiado descaído para a direita), o 22 do BFC pôde, finalmente, jogar com funções idênticas às que desempenhava na Académica e que lhe valeram o interesse da SAD boavisteira: apresentava-se mais no "miolo", sendo encarregue de organizar e distribuir jogo, ao invés de apenas destruir. E a verdade é que Lucas mostrou classe, qualidade e precisão no passe, quer curto, quer longo. Gizou algumas aberturas e foi o elemento que mais contribuiu para as variações de flanco, permitindo transportar o jogo para zonas menos povoadas, nas quais o Boavista tinha mais jogadores. O Gil Vicente, talvez fruto de alguma deorientação pelo domínio avassalador dos "axadrezados", era uma formação demasiado dura, faltosa e acabou por ver um dos seus homens, Rodolfo Lima, ser expulso logo aos 16 minutos. Aos 12 minutos, após João Pinto ganhar posição no flanco esquerdo, junto à linha final, o avançado cedido pelo Benfica, sem qualquer preocupação em disputar o esférico, decide pontapear o 12 do BFC. O cartão amarelo exibido pelo árbitro, o sr. Elmano Santos, pareceu constituir um castigo demasiado "leve". Pouco depois, o mesmo Rodolfo Lima fez nova falta, novamente dura: Areias subia pela esquerda, conseguia romper, mas foi travado por um "tackle" pergioso do avançado gilista. O segundo amarelo impunha-se e o juiz da partida não hesitou e mostrou-o. A superioridade "axadrezada" acentuava-se. Aos 25 minutos, Manuel José faz a "tabelinha" com João Pinto, penetra na grande área e remata forte ao lado; minutos depois, o mesmo Manuel José, na sequência de um livre na esquerda, ainda relativamente longe da grande área, quando se esperava que ele tirasse um cruzamento, tenta mesmo o golo e quase surpreende Jorge Baptista, que teve de desviar para canto. Aos 35 minutos, o Boavista teve uma das ocasiões mais flagrantes do encontro: Rui Duarte, na direita, faz uma abertura para o flanco canhoto, Jorge Baptista hesita entre sair e não sair, aproveitando Manuel José para receber a bola e endossá-la a Diogo Valente; este cruza para Fary, que cabeceia, no "coração" da grande área. Quando os adeptos já se preparavam para festejar, Rovérsio consegue interceptar o esférico, pouco antes da linha de golo. Até ao intervalo a toada da partida manteve-se.


INÍCIO DA SEGUNDA PARTE E... TRANSFIGURAÇÃO PARA PIOR


À entrada para segunda metade, Ulisses Morais lançava em campo Gouveia e Carlos Carneiro, na tentativa de reequilibrar a equipa e ter mais um homem no ataque, compensando a expulsão de Rodolfo Lima, de modo a que os dois laterais do BFC não pudessem subir pelo seu flanco com tanta frequência e os dois centrais não jogassem com o mesmo "à vontade" da primeira parte. O Boavista, por sua vez, nada alterava. No entanto, os primeiros minutos da etapa complementar deixaram antever que a qualidade da actuação "axadrezada" seria menor em relação ao primeiro tempo e as dificuldades defensivas seriam maiores. Não tinham passado cinco minutos do reinício da partida e o Gil Vicente causava alguns "arrepios" no Estádio do Bessa Século XXI: Luís Coentrão conseguia ganhar espaço pela direita, centrava e Leandro Netto, livre de marcação, rematava, de primeira, para defesa por instinto de William Andem. Apesar de ter sido a única ocasião verdadeiramente flagrante do Gil Vicente na segunda metade, tal não significa que o segundo tempo do Boavista possa ser considerado, na sua maior parte, satisfatório. Fruto do alargamento da frente de ataque gilista, os dois laterais subiam muito menos, sobretudo Areias, Lucas tinha muito maiores preocupações defensivas, fechando o flanco esquerdo (tinha, pois, muito menos espaço e disponibilidade para organizar/distribuir jogo), Tiago revelava a lentidão habitual no passe. Por isso, a transição defesa-ataque do Boavista perdia eficácia e rapidez, o que permitia ao Gil Vicente adiantar as suas linhas e pressionar mais. No ataque, JVP, Manuel José e Fary tudo faziam para inverter o sentido do encontro, porém, a outra "peça" falhava: Diogo Valente denotava excessiva apatia e errava demasiados passes. A substituição do esquerdino por Paulo Jorge foi, por isso, ajustava. E a entrada do ex-Maia em campo contribuiu para uma melhoria da equipa do Boavista, embora muito ligeira, pois o extremo trouxe maior animação e acutilância ao flanco esquerdo, conseguindo romper, em algumas ocasiões. No entanto, o futebol "axadrezado" continuava a denotar uma incompreensível insegurança e precipitação.


UMA SUBSTITUIÇÃO ARROJADA QUE FEZ A EQUIPA "ACORDAR"


Numa altura em que só alguns pormenores de JVP e Manuel José e abnegação de Fary permitiam à equipa "libertar-se", Carlos Brito decide operar uma alteração à partida estranha para quem está em vantagem: sai Rui Duarte, entra Guga. Esta troca acarretou o recuo de Manuel José para o lado direito da defesa, jogando Guga mais à frente. E a verdade é que esta substituição, não obstante uma dose adicional de risco devida ao pior sentido posicional e ao menor rigor nas marcações de Manuel José (em comparação com Rui Duarte), possibilitou ao Boavista voltar a fazer a transição para o ataque em boas condições, canalizando-a pelo flanco direito. Manuel José transportava o jogo para o meio-campo contrário, valendo-se da força e da energia que conservava. Como consequência disso, o Boavista voltava a aproximar-se da grande área gilista. Pouco depois, Carlos Brito esgotava as alterações: um Fary exausto era rendido por William Souza. E o avançado brasileiro, nos antípodas do que havia feito noutros encontros, em que, igualmente, entrou para o lugar do 9 do BFC, apresentou-se com uma disposição diferente em campo. Mais batalhador, mais móvel, William Souza conseguiu abrir espaços e acabou por ser recompensado por isso. O Boavista, nesta fase, pressionava, voltava a trazer o entusiasmo aos adeptos do Boavista e, aos 83min, Paulo Jorge rompe pela esquerda, penetra na grande área e faz o passe a William Souza, que, diante de Jorge Baptista, não conseguiu, por pouco, desviar. Guga recuperou a bola, descobriu Manuel José, que efectou um cruzamento perfeito para Fary, todavia, Gregory, mais forte no jogo aéreo, fez a intercepção. Mas o BFC conseguiu mesmo chegar ao 2-0. Na sequência de um livre na esquerda, junto à linha final, Manuel José centra ao segundo poste e William Souza é agarrado por Rovérsio. Mais uma grande penalidade bem assinalada. Foi o próprio William quem marcou o "penalty" e o brasileiro (rematando, curiosamente, para o mesmo lado para o qual Fary converteu o "castigo máximo" da primeira parte) estreia-se a "facturar" nesta Liga. Estava resolvido o encontro e esperemos, já agora, que este tento seja o mote para mais por parte de William Souza. Com uma maior tranquilidade, fornecida pelo segundo golo, que era a garantia dos três pontos, o Boavista explanava o seu futebol com grande categoria, recuperando o que havia feito no primeiro tempo. "Tabelinhas" e triangulações entre jogadores como Guga, João Pinto, Paulo Jorge e Manuel José foram uma constante nos quatro minutos de "compensações" e contribuíram para a deorientação total da equipa de Barcelos. E se o segundo golo tivesse surgido mais cedo... talvez o resultado fosse mais ampliado e a segunda parte "axadrezada" mais tranquila.


NOTAS FINAIS


Se já foram elogiadas as prestações de João Pinto ("espalhou" todo o seu talento pelo relvado do Bessa), Manuel José (seja médio, extremo ou defesa, a sua abnegação é sempre a mesma e o ex-Setúbal é, sem dúvida alguma, um elemento fundamental no "Xadrez"), Fary (é um avanaçado que, além de ser oportuno, vem frequentemente atrás buscar jogo, lutando imenso) e de Lucas, na etapa inicial da partida, além de o futebol praticado pela equipa ter sido avaliado ao longo de toda esta crónica, resta elogiar a boa prestação (finalmente!) dos dois centrais, que, apesar de uma ou outra falha de marcação, mantiveram sempre a consistência do "eixo" da defesa e souberam resolver, com menor ou maior dificuldade, todos os problemas que tiveram de solucionar. Para finalizar, em suma, parece que os 16 dias de "pausa" em termos de partidas de cariz oficial foram benéficos para o Boavista, na medida em que permitiram melhorar a qualidade da circulação de bola e a estabilidade do processo defensivo, não obstante a pouca eficiência da transposição do jogo para o ataque durante a maior "fatia" da segunda parte ser um aspecto a rever para os próximos encontros da Liga (deslocação a Braga e recepção ao Sporting são duas partidas que se seguem no campeonato, constituído testes de grau de dificuldade elevadíssimo). VIVA O BOAVISTA!!!


 



publicado por pjmcs às 19:05
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