Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005
Boavista 2 - Sporting 2: GRANDE PERSONALIDADE E FUTEBOL-ESPECTÁCULO DOS "AXADREZADOS" MERECIAM MAIS.

Boavista – William Andem; Rui Duarte (William Souza, aos 32min), Hélder Rosário, Cadú e Areias; Tiago e Lucas; Manuel José (Diogo Valente, aos 73min), João Pinto e Guga (Zé Manel, ao intervalo); Fary


Treinador: Carlos Brito


Sporting  – Ricardo; Rogério, Miguel Garcia, Beto e André Marques (Tello, aos 54min); Custódio, Sá Pinto (João Alves, aos 69min), João Moutinho e Nani; Douala (Pinilla, aos 81min) e Liedson


Treinador: Paulo Bento


ANÁLISE GLOBAL


            Sem qualquer exagero, o Boavista terá feito, ontem à noite, provavelmente, a melhor exibição dos últimos anos. Mostrou garra, chegou a deslumbrar com algumas triangulações de grande qualidade, teve sempre um volume ofensivo bastante acentuado pelas faixas (principalmente pela direita, embora, na segunda parte, com a entrada de Zé Manel, as iniciativas de ataque do BFC tenham começado a passar mais pelo flanco esquerdo). O grande problema residiu em alguma ingenuidade defensiva no primeiro tempo, que ditou dois golos completamente contra a corrente do jogo. No entanto, o Boavista reagiu e, com uma etapa complementar excelente (sobretudo nos 20-25 minutos iniciais, em que, pode afirmar-se, foi como que um "rolo compressor"), recuperou dos dois tentos de desvantagem e, inclusive, justificou algo que um ponto ganho ou, melhor dizendo, que os dois pontos perdidos. Apesar de este empate com o Sporting, atendendo ao facto de se tratar de um crónico candidato ao título, não ser, propriamente, um resultado negativo, a verdade é que ficou a clara ideia de que os "axadrezados" mereciam mais. Muito mais. Carlos Brito teve (muita) ambição, arriscou imediatamente na primeira parte (soube responder aos dois golos "verde-e-brancos", lançando William Souza para o lugar de Rui Duarte, passando o BFC a actuar em 4-2-4, desdobrável em 3-2-3-2 nas iniciativas ofensivas, com as subidas de Manuel José) e quando a partida já estava empatada as duas bolas (com a substituição Manuel José por Diogo Valente, o Boavista passou a jogar num arrojado 3-4-3), mostrando que só a vitória lhe interessava.


TÁCTICAS E "ONZES"


            Contrariamente ao que o Notícias do Bessa revelara no seu "pré-match", no sábado, Carlos Brito acabou por introduzir alterações algo surpreendentes na equipa. Carlos rendeu William Andem na baliza, Guga foi o extremo-esquerdo (quando Diogo Valente e Zé Manel se afiguravam como hipóteses mais prováveis). Mas o 4-2-3-1 mantinha-se, com os princípios de jogo baseados na circulação de bola, aproveitando, também, as alas. Lucas era, na mesma, o distribuidor de jogo (por falar em Lucas, o meio-campo do BFC não apostou em marcações individuais: Tiago ocupava zonas mais centrais, descaindo ligeiramente para a direita, enquanto que Lucas jogava mais perto da linha lateral, na esquerda) e JVP podia jogar solto. Quanto ao Sporting, Paulo Bento apostou num 4-3-3 permutável num 4-4-2, dependendo das movimentações de Nani. Todavia, com o desenrolar do encontro, face à pressão "axadrezada", este jogador sportinguista acabou por ser mais médio do que extremo. Douala, por sua vez, surgia no apoio a Liedson, numa frente de ataque móvel que visava "confundir" a defensiva boavisteira.


INÍCIO DA PARTIDA, O BOAVISTA ENTRA MELHOR... ASSUMINDO O DOMÍNIO DO ENCONTRO


            Mal o encontro teve o seu início, o Boavista assumiu uma postura ofensiva, ambiciosa, encarando o Sporting como qualquer outro dos adversários que, esta época, já passaram pelo Estádio do Bessa Século XXI (que, ontem, registou uma "casa" muito boa). João Pinto era como que o "joker" da equipa do BFC, contribuindo, com jogadas ao primeiro toque e passes mais longos, para abrir o jogo nas faixas. Manuel José procurava fazer diagonais curtas, deixando espaço para as subidas de Rui Duarte. Na esquerda, Guga flectia para o centro, jogando, juntamente com JVP, nas "costas" de um lutador Fary. Tal posicionamento do brasileiro tinha vantagens e desvantagens: por um lado, trazia maior segurança à circulação de bola e permitia algumas combinações que abriam espaços na defensiva sportinguista; por outro lado, obrigava Lucas a um trabalho adicional e Areias ficava mais exposto às tentativa de Nani, Douala ou mesmo Liedson em romperem por aquele flanco, além de retirar profundidade ofensiva à ala canhota. Já no Sporting, apenas Liedson (sempre irrequieto, sendo um jogador claramente incómodo) e Nani (criou algumas dificuldades aos dois laterais) tentavam inverter o domínio boavisteiro. Sá Pinto, apesar de muito aguerrido, mostrava pouca arte e criatividade quando tinha a bola nos pés, João Moutinho não conseguiu fazer face à superioridade "axadrezada" no meio-campo, Custódio sentia imensas dificuldades para travar João Pinto. Talvez por isso, o Sporting, na fase inicial do encontro, foi uma equipa faltosa (JVP foi o jogador mais "visado").


            Entretanto, surgiam as primeiras oportunidades de golo. O Boavista materializava o seu domínio, perto dos 20 minutos: João Pinto combina com Fary, conseguindo, junto à linha final, sem deixar cair a bola, centrar; o avançado senegalês, com um bom gesto técnico, remata de pé direito, obrigando Ricardo a uma defesa por instinto. Praticamente a seguir, Rui Duarte, desmarcado por Manuel José, cruza com “conta, peso e medida” para o coração da grande área, onde apareceu novamente Fary, a cabecear ligeiramente ao lado. Foram dois lances que fizeram alguns adeptos do Boavista gritar golo.


DOIS ATAQUES “VERDE-E-BRANCOS”… 0-2 E ALGUNS MINUTOS DE DESORIENTAÇÃO


            Na resposta ao caudal ofensivo “axadrezado”, o Sporting inaugura o marcador, num lance em que o último reduto do BFC denotou alguma ingenuidade e passividade. Nani recupera a bola centro do terreno e Tiago, ao invés de se manter na sua posição, como médio mais recuado, tenta adiantar-se e fazer o desarme, mas acaba por escorregar. O número 18 sportinguista continua, sem grande oposição, com o esférico na sua posse, uma vez que a compensação a Tiago é mal feita por Guga e Rui Duarte, e efectua o remate, de fora da grande área, com a bola a bater na perna direita de Hélder Rosário e a “trair” Carlos. Minutos depois, sem ter tempo para esboçar uma reacção, o Boavista sofre o segundo tento, na sequência de um canto que não existiu. O remate de Douala embate nas redes laterais da baliza de Carlos, sem este, no entanto, ter tocado na bola. André Marques marca o canto ao segundo poste, em direcção a Beto. Este parece fazer falta sobre Cadú (apoia-se de forma irregular no central boavisteiro). No entanto, mesmo tendo em conta a infracção do defesa “leonino”, Cadú e Carlos não ficam isentos de culpas no lance, pois ambos permitiram que Liedson se isolasse perto da linha de golo para ampliar a vantagem do Sporting. O facto de, uma vez mais, não estar ninguém a “cobrir” no segundo poste também contribuiu para as facilidades de que os jogadores do Sporting sentiram nesse lance. E assim, de repente, o Boavista via-se a perder por dois tentos de diferença, sem o opositor ter feito muito para justificar, sequer, estar na liderança do marcador. Os cerca de 10 minutos subsequentes foram os únicos em que a turma lisboeta logrou controlar as operações do encontro, sem, no entanto, o seu futebol apresentar grande profundidade. O Boavista desorientava-se tacticamente, deixando de ocupar, de forma equilibrada, os espaços, permitindo, por isso, ao Sporting trocar a bola em zonas do terreno, diria, “confortáveis” para os “verde-e-brancos”.


CARLOS BRITO FAZ A PRIMEIRA ALTERAÇÃO, A EQUIPA VOLTA A ANIMAR-SE


            Foi pouco depois da meia-hora de jogo que Carlos Brito, após ter estado a reflectir, no “banco”, durante alguns instantes, decidiu enviar à equipa a mensagem de que continuava a acreditar, arriscando para inverter o rumo dos acontecimentos. Saía o lateral-direito, Rui Duarte, sendo rendido por um ponta-de-lança, William Souza. Em termos tácticos, o BFC passava para 4-2-4, com Manuel José como falso lateral-direito, dispondo de liberdade para subir, e João Pinto a revezar-se entre o posto de extremo-direito e a função de “playmaker”. Esta substituição teve o condão de fazer “acordar” a equipa do Boavista. Os “axadrezados” voltavam a assumir o comando da partida, o domínio da posse de bola. Aos 35min, Manuel José cruza, na execução de um livre na direita do ataque, para Cadú, que cabeceia ligeiramente ao lado. O intervalo chegava, com um claro sabor a injustiça. O 0-2 “mentia” acerca daquilo que tinha sido o desenrolar da partida no primeiro tempo. Quase a fechar, Manuel José, com um cruzamento largo, acaba por surpreender Ricardo, fazendo o esférico embater na barra.


CARLOS BRITO LANÇA ZÉ MANEL AO INTERVALO E BOAVISTA ENTRA A MARCAR


            Ao intervalo, Carlos Brito decide operar a segunda alteração na equipa, trocando Guga por Zé Manel. Esta mudança resultava numa maior acutilância da ala esquerda e, consequentemente, numa maior capacidade do Boavista nas variações de flanco sem perda de objectividade, almejando a baliza adversária.


            E, logo a abrir a etapa complementar, o BFC reduziu para 1-2. Zé Manel, na primeira vez que toca no esférico, cruza para João Pinto, que, num excelente golpe de cabeça (num gesto muito característico do internacional português), antecipando-se a Miguel Garcia, remata sem hipóteses para Ricardo. O público afecto ao Boavista, naturalmente, entusiasmava-se e os “axadrezados” pressionavam cada vez mais. O empate parecia uma questão de minutos, tal era o volume ofensivo do BFC. Manuel José era, cada vez mais, um extremo-direito (Hélder Rosário fechava o lado direito da defesa), ultrapassando, com aparente facilidade, André Marques, primeiro, e Tello, após os 54min (além de ser mais um transportador de jogo, complementando o trabalho que Tiago, Lucas e o próprio JVP faziam), Zé Manel criava dificuldades a Rogério, Lucas e Tiago jogavam mais adiantados, na distribuição/organização de jogo (e, se a qualidade no passe longo/curto evidenciada por Lucas não é uma novidade, o auxílio dado por Tiago, denotando melhor visão de jogo do que em encontros anteriores, acabou por constituir uma agradável surpresa), e João Pinto conseguia abrir espaços com a sua qualidade no controlo de bola e com as combinações que fazia com os companheiros. Quanto ao Sporting, a formação de Lisboa praticamente não explorava o contra-ataque, permitindo ao Boavista jogar com apenas 3 defesas, face ao posicionamento de Manuel José.


O JÁ ESPERADO GOLO DO EMPATE EM NADA ALTERA A POSTURA “AXADREZADA”


            Foi com naturalidade, face à pressão cada vez mais intensa do Boavista, que o golo do empate surgiu. Zé Manel, com um grande trabalho na esquerda, passando, em simultâneo (com alguma sorte, é certo), por Rogério e Nani, efectua um remate em jeito, obrigando Ricardo a estirar-se para defender. A bola, no entanto, sobra para William Souza, que, de cabeça, atira para a baliza deserta. Era a “explosão” de alegria no Estádio do Bessa Século XXI. Aos 57min, a “Pantera” recuperava dos dois tentos de diferença, repondo alguma (não totalmente) justiça no marcador.


            Quando se esperava que o BFC, já com um resultado mais agradável, abrandasse em termos ofensivos, jogando um pouco mais na expectativa, e que o Sporting reagisse, tentando equilibrar a “batalha” do sector intermédio, a toada do encontro continuou cada vez mais… na mesma. O Boavista mantinha a pressão extremamente alta, obrigando os “leões” a apostarem num estilo de jogo directo, procurando bombear bolas na tentativa de que alguma distracção defensiva dos “axadrezados” pudesse ser aproveitada por Liedson. Aos 61min, canto para o Boavista e William Souza cabeceia para defesa apertada de Ricardo sobre a linha. O BFC continuava a carrilar o seu futebol por ambos os flancos, Fary lutava imenso e João Pinto espalhava a sua arte pelo relvado. Só a segurança evidenciada por Ricardo aos cruzamentos evitou que o Sporting vivesse momentos de verdadeira aflição.


PAULO BENTO TENTA DAR NOVA DINÂMICA AO MEIO-CAMPO, CARLOS BRITO RESPONDE


            Aos 69min, o novo treinador sportinguista realizou a segunda alteração: João Alves rendia um desinspirado Sá Pinto. Com esta substituição, Paulo Bento tentava incutir mais garra e ambição ao seu meio-campo. Mas, se é verdade que o Sporting melhorou, tal subida de rendimento foi muito, mas muito ligeira. João Alves mostrou vontade, é certo, porém, o domínio do “miolo”, e, por conseguinte, da partida, permanecia “axadrezado”.


            Aliás, Carlos Brito respondeu praticamente de seguida, novamente mostrando insatisfação com a igualdade no encontro (algo que foi bem patente quando, cerca dos 65min, o treinador do BFC, pontapeou a bola, após esta sair pela linha lateral, denotando visível irritação pelo facto de os cruzamentos efectuados pelos jogadores “axadrezados” das alas não apresentarem a direcção e a precisão desejadas, de modo a que William Souza ou Fary pudessem almejar a baliza), trocou Manuel José (aparentemente “tocado”), um dos melhores em campo, por Diogo Valente. Como foi referido na ANÁLISE GLOBAL, o 3-4-3 era o sistema explanado no relvado, com o treinador do Boavista a solicitar a Zé Manel e a Diogo Valente, principalmente ao primeiro (uma vez que Areias, na esquerda, desdobrava-se entre lateral e central, marcando Liedson), que fechassem os respectivos flancos. O número 7 do BFC, agora na direita, procurava, agora, apostar em remates de fora da grande área, tentando surpreender Ricardo. E, na fase final do encontro, o ex-pacense esteve muitíssimo perto do 3-2. Outros dois lances merecem destaque, em ambos com Diogo Valente como principal interveniente. No primeiro, JVP desmarca o jovem esquerdino, que, na grande área, acaba por escolher a pior opção: decidiu ir à linha para cruzar, quando deveria ter feito a diagonal para tentar o remate diante de Ricardo. Na segunda, o número 11 do Boavista, novamente com espaço na esquerda, tendo a possibilidade de isolar Fary, perde demasiado tempo, culminando a jogada num passe com o seu pior pé (o direito), que Beto consegue interceptar. Em algumas ocasiões, já com o encontro próximo do seu final, William Souza e Fary, nos últimos esforços, procuraram, em velocidade, surpreender os centrais sportinguistas, mas Ricardo levou sempre a melhor. Quanto ao Sporting, já com Pinilla em campo (que entrou para o lugar de Douala, numa substituição que acentuou a intenção de a turma “verde-e-branca” basear o seu futebol em lançamentos longos), apenas na sequência de livres apontados por Tello, que resultavam em cruzamentos para a grande área, conseguia transportar o jogo para o último reduto “axadrezado”, sem, contudo, grande perigo. Até ao final do encontro, apesar do “forcing” final do Boavista, fortemente apoiado pelo seu público, a partida terminou sem mais lances de grande destaque.


COMENTÁRIO FINAL


            Antes de mais, a partida de ontem foi, sem dúvida alguma, um grande espectáculo de futebol, um dos melhores em Portugal, antevo-me a dizê-lo, nos últimos anos. O Boavista revelou garra, ambição, mística, até. A forma como a equipa, perante um adversário categorizado, impôs o seu futebol, recheado por momentos de grande qualidade em termos técnicos, deixou, certamente, todos os boavisteiros orgulhosos. O único “senão” foi a intranquilidade defensiva denotada nos dois ataques que culminaram nos tentos sportinguistas, sobretudo no segundo golo, em que, não obstante a falta de Beto (foi, pelo menos, a sensação que foi dada no estádio) sobre tudo, o sector mais recuado do BFC voltou a falhar nas marcações e no posicionamento, guarda-redes incluído. Todavia, Carlos, na segunda parte, nas (raras) ocasiões em que foi colocado à prova, com cruzamentos para sua grande área, respondeu com segurança. João Pinto (que fez questão de, após o final do encontro, “convocar” os seus colegas para agradecerem aos adeptos do BFC que se deslocaram, ontem, ao Bessa), Manuel José (um futebolista que dá gosto ver actuar), Lucas (com novas funções esta temporada, o que se reflecte num melhor rendimento, principalmente quando tem a bola nos pés). Zé Manel (entrou muito bem, voltando a ser aquele jogador rápido e rompedor) e Fary (pelo muito que batalhou) merecem elogios em especial. Areias sentiu algumas dificuldades na primeira parte (sobretudo quando Nani ou Liedson descaiam para a sua ala), mas melhorou no segundo tempo, auxiliando Zé Manel e, depois, Diogo Valente em algumas situações, Cadú esteve forte no jogo aéreo e foi prático quando não podia complicar, Hélder Rosário, embora falhando, por vezes, no tempo de salto para a disputa do esférico pelo ar, esteve imperial nas dobras na etapa complementar (o que permitiu a Manuel José ser um lateral extremamente ofensivo) e Tiago, não obstante algumas precipitações ao fazer o “tackle” quando se impunha que temporizasse, mostrou, como já foi dito, maior qualidade e segurança no passe. Em suma, o Boavista foi uma equipa realmente forte, brindando os seus adeptos com futebol-espectáculo e de ataque. Se as falhas defensivas forem corrigidas, esta equipa pode, com esta qualidade de jogo, dar grandes alegrias a todos os boavisteiros. Mérito, também, para Carlos Brito, que fez regressar o bom futebol ao Bessa, após algumas épocas de “ausência”. VIVA O BOAVISTA!!!



publicado por pjmcs às 23:30
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11 comentários:
De Anónimo a 1 de Novembro de 2005 às 01:33
foi mesmo um azar o caraças!

=/ enfim. Silent_Heart
</a>
(mailto:slent_heart@netcabo.pt)


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