Domingo, 1 de Outubro de 2006
Belenenses 0 - Boavista 2: BOAVISTA DÁ LIÇÃO TÁCTICA E GANHA COM TRANQUILIDADE E... CLASSE

Belenenses – Costinha; Sousa (Pinheiro, aos 80min), Gaspar, Nivaldo e Rodrigo Alvim; Rúbem Amorim e Mancuso; Cândido Costa, Roma (Dady, ao intervalo) e Silas; Manoel (Eliseu, aos 32min)

Treinador: Jorge Jesus

Boavista William; Hélder Rosário, Ricardo Silva, Cissé e Mário Silva (Fernando Diniz, aos 59min); Tiago e Kazmierczak; Lucas, Ricardo Sousa (Grzelak, aos 66min) e Zé Manel (Essame, aos 85min); Roland Linz

Treinador: Zeljko Petrovic

Mostrando uma excelente organização táctica e classe na hora de aproveitar as linhas de passe e as ocasiões de golo construídas, o Boavista conseguiu facilitar uma tarefa que se previa bastante complicada, obtendo uma preciosa vitória. Foi um triunfo que acabou por ser tranquilo, já que o BFC foi a única equipa que revelou objectividade e que criou oportunidades para marcar durante a primeira parte e, no segundo tempo, soube gerir o jogo a seu "bel-prazer", fechando muito bem os espaços no seu meio-campo defensivo, impedindo, assim, o Belenenses de penetrar no seu último reduto.

Não foi, propriamente, um grande espectáculo de futebol (ao nível, por exemplo, daquilo que o BFC fez frente ao Benfica), mas, ainda assim, o Boavista foi, em comparação com as partidas frente ao Setúbal e à Académica, mais equipa, com melhor ligação entre os sectores (nesse aspecto, a utilização de Kazmierczak mais recuado permitiu iniciar uma construção de jogo apoiada desde zonas mais recuadas e a inclusão de Ricardo Sousa trouxe, sem dúvida, mais classe, já que o esquerdinho teve alguns pormenores, ao nível de passes e aberturas, de grande qualidade), e, no sector defensivo, os dois centrais mostraram um melhor entendimento, com Cissé a ganhar os duelos individuais com Manoel, Eiliseu e Dady e Ricardo Silva, central encarregue das "sobras", jogou, finalmente, ao nível a que, na época passada, habituou os boavisteiros, denotando segurança no jogo aéreo, capacidade para aparecer em intercepções importantes e para sair a jogar em boas condições. Aliás, no sector defensivo, apenas Mário Silva não esteve num plano positivo, já que sentiu imensas dificuldades para travar Cândido Costa, daí que a faixa direita do ataque do Belenenses tenha constituído, durante a primeira hora de jogo, a única zona que os lisboetas conseguiam utilizar para criarem alguns (poucos) problemas ao Boavista. Claro que Mário Silva tem como atenuante o facto de não ter tido em Zé Manel (que jogou no flanco esquerdo) o apoio necessário nas tarefas defensivas (uma vez que o número 7 do BFC, quando a equipa não tem a bola, procura ajudar o ponta-de-lança a fazer a chamada pressão alta, ao invés de recuar na sua faixa para auxiliar o lateral), mas também é verdade que, a partir do momento em que o experiente defesa-esquerdo foi substituído por Fernando Diniz, não mais o Belenenses conseguiu encontrar espaços pela sua ala direita. Uma nota também para William, que, apesar de não ter tido muito trabalho, esteve, simplesmente, impecável em todas as ocasiões em que foi chamado a intervir. Na retina, fica uma defesa de belo efeito após um remate em jeito de Silas, com o guarda-redes camaronês, com um excelente vôo, a conseguir blocar o esférico.

O encontro começou da melhor forma para o Boavista. Aos 3 minutos, na sequência de um livre à entrada do meio-campo belenense, Kazmierczak ganha de cabeça a Gaspar; a bola sobra para Sousa, que, no entanto, cabeceia para o seu lado direito - Roland Linz, no sítio certo, aproveita e, sem hesitar, remata forte e colocado, sem quaisquer hipóteses para Costinha. Com o tento madrugador, o Belenenses foi obrigado a subir no terreno e a tentar assumir as despesas do jogo, mas acabou por "esbarrar" na dupla Kaz/Tiago. Desta forma, o Boavista encontrou espaços para explanar o seu futebol, lançando (quer por Kaz, quer através de excelentes aberturas de Ricardo Sousa), ataques rápidos e "venenosos", aproveitando, também, a capacidade de Linz, jogando entre os centrais adversários, receber a bola, segurá-la, abrir espaços e desmarcar colegas em boa posição. Foi isso que aconteceu no lance do segundo golo, aos 35 minutos, no qual Roland Linz, com o pé esquerdo, faz um passe a rasgar na direcção de Zé Manel, que, fazendo uso da sua velocidade (parece estar de volta aos bons "velhos" tempos), se isola perante Costinha e, praticamente, resolve o jogo. De realçar que, alguns minutos antes, desta feita a passe de Ricardo Sousa, Zé Manel se isolara perante Costinha, mas o lance acabou por ser invalidado por um fora-de-jogo muito mal tirado. Também Linz poderia ter bisado, numa altura em que o marcador registava 0-1, quando, após um remate fortíssimo de Zé Manel na marcação de um livre, o ponta-de-lança austríaco apareceu na "cara" de Costinha (que havia efectuado uma defesa incompleta), mas acabou por rematar por cima. Em suma, a confortável vantagem boavisteira ao intervalo era justa, pecando, talvez, por escassa.

A segunda parte não tem grande história, porque o Boavista, de forma muito inteligente, preocupou-se, sobretudo, em fechar todo e qualquer possível caminho para a sua baliza que o Belenenses pudesse explorar. A turma da casa mostrou, assim, impotente para causar grandes sobressaltos, destacando-se apenas um cabeceamento ao lado de Dady. Muito pouco para uma equipa de um primeiro escalão que está a jogar em casa. Neste cenário, convém salientar a importância da entrada de Grzelak (que rendeu o exausto Zé Manel), porquanto o polaco, mostrando uma notável abnegação, percorreu o campo em toda a sua largura, de uma faixa à outra, estando sempre onde estava a bola, de modo a evitar que o Belenenses pudesse visualizar uma linha de passe que fosse. Apesar de ter entregue a iniciativa de jogo e a posse de bola ao adversário durante os segundos 45 minutos, o Boavista soube defender bem, não recuando as suas linhas em demasia  (ou seja, não convidando o Belenenses a "crescer") e pressionando logo à saída do seu meio-campo, o que fez com que a equipa do Restelo não tivesse tempo nem espaço para construir o seu jogo de forma sustentada e apoiada. Em síntese, foi uma vitória justa e tranquila de uma equipa adulta e que, neste jogo, mostrou maior clareza e coerência de processos.

ANÁLISE TÁCTICA

Como já se esperava, Zeljko Petrovic mudou de sistema táctico, abdicando do 4-3-3 "clássico". A entrada de Ricardo Sousa, que desempenhou as funções de médio criativo e organizador de jogo, jogando nas "costas" de Linz, levou a que a equipa se dispusesse num 4-2-3-1 nas acções ofensivas, com Kazmierczak menos vocacionado para o apoio ao ataque (embora subisse sempre que houvesse um livre ou um lançamento perto da grande área), em prol de uma maior preocupação em tapar os espaços ao meio-campo ofensivo adversário e, por vezes, de um auxílio aos dois centrais na luta pela superioridade no espaço aéreo. Zé Manel, desta vez, face à saída de Grzelak, actuou no flanco esquerdo, efectuando, todavia, fruto das combinações com Linz, diagonais rumo ao interior da grande área (numa das quais, apontou o segundo golo do BFC). No outro flanco, Lucas fez de "falso" extremo-direito. A utilização de Lucas nessa posição retirou, é certo, profundidade ofensiva à equipa na direita, mas a verdade é que permitiu que o Boavista, sempre que perdia a bola, passasse a actuar num 4-3-1-2, com o ex-academista a passar para médio-interior direito e, assim, o facto de Ricardo Sousa ter jogado "solto", livre de preocupações defensivas, não teve repercussões ao nível da consistência do sector intermediário. Na fase final da partida, Petrovic lançou Grzelak, que, desta vez, não actuou no flanco esquerdo, mas, sim, com a missão de percorrer o campo de uma faixa à outra para impedir que o homem do Belenenses que tivesse a bola pudesse jogar livre de pressão. A entrada de Essame, nos minutos finais, fez com que o BFC passasse a jogar num 4-4-1-1, com quatro médios (Lucas e Kaz mais descaído e Essame e Tiago em posições centrais) de contenção e Grzelak à frente desse quarteto, enquanto que Linz, já exausto, se mantinha no meio-campo adversário, "prendendo" os centrais do Belenenses.

DESTAQUES INDIVIDUAIS E ÚLTIMAS NOTAS

Roland Linz, por tudo o que já foi dito, merece, talvez, a distinção de melhor jogador em campo. Revelou grande sentido de oportunidade e "poder de fogo" na forma como aproveitou o erro de Sousa para "fuzilar" Costinha. O mesmo sentido de oportunidade esteve presente quando surgiu na recarga a um remate forte de Zé Manel, só não mantendo a mesma eficácia. É um verdadeiro ponta-de-lança, lutando imenso entre os dois centrais adversários, ganhando a maior parte das bolas que lhe são endossadas e mostrando excelente leitura de jogo na forma como, após uma boa recepção de bola, desmarcou, com um passe a rasgar preciso, o seu colega de ataque Zé Manel para o segundo golo "axadrezado". E já soma quatro golos e uma assistência, apenas com cinco jornadas decorridas.

Além dos dois centrais e de William, também Kazmierczak, no sector defensivo, merece nota de destaque. Evidenciou um notável sentido posicional e táctico, ao alternar muito bem entre as posições de médio-interior esquerdo, de médio mais recuado e, por vezes, de terceiro central, respondendo da melhor forma às necessidades da equipa em todos os momentos do encontro. Igualmente, foi no seu pé esquerdo que, com passes precisos, uma boa parte das saídas do BFC para o ataque teve início. Também o seu companheiro de sector Tiago, embora arriscando menos no passe (aposta, claramente, no passe curto para colegas mais próximos), foi determinante no equilíbrio defensivo da equipa no sector intermediário, impedindo que o Belenenses dispusesse de liberdade e espaços para construir o seu jogo.

Ricardo Sousa, apesar de o facto de a equipa jogar, fruto da vantagem madrugadora, algo na expectativa (não dominava, claramente, o encontro) desfavorecer qualquer jogador com as suas características, exibiu alguns pormenores verdadeiramente deliciosos, com passes a 20, 30 metros muito bem medidos, dando o toque de classe que terá faltado, quiçá, frente ao Setúbal e à Académica. Zé Manel, por sua vez, não obstante, como já foi referido, não ter colaborado na tarefa de fechar o flanco esquerdo, foi um elemento importantíssimo, na medida em que fez dupla com Linz no "pressing" alto aos defesas do Belenenses e, fazendo uso de uma estonteante velocidade (que, felizmente, parece voltar a ser uma das suas características) abriu zonas de penetração perante o desamparado lateral Sousa.

Uma última referência para o árbitro da partida, o sr. Olegário Benquerença. Apesar de o lance mais polémico do encontro (o fora-de-jogo mal assinalado a Zé Manel) não ser da sua responsabilidade (mas, sim, do árbitro-assistente que seguia o ataque "axadrezado" na primeira parte), a verdade é que o juiz leiriense conseguiu, em algumas situações, complicar uma partida que não teve grande dureza. Exagerou, claramente, na exorbitante quantidade de cartões amarelos (7!) exibidos aos jogadores do Boavista. Os cartões mostrados a Ricardo Sousa (por uma falta banalíssima a meio-campo) e a Cissé (por uma alegada perda de tempo... excesso de zelo por parte do árbitro, já que o central franco-maliano apenas se afastou da bola para que o companheiro encarregue de marcar a falta - Mário Silva, o pudesse fazer) são ridículos, ainda para mais quando Nivaldo, que rasteirou, de forma duríssima, Ricardo Sousa à entrada da área, não foi punido disciplinarmente. Os cartões amarelos poderiam ter condicionado a actuação dos jogadores do BFC, que, contudo, souberam manter a serenidade.

Para terminar, resta-nos desejar que a coesão entre os três sectores que o Boavista evidenciou ontem (nos antípodas do que tinha acontecido frente à Académica) se mantenha, assim como a capacidade táctica da equipa. A BwinLiga só prossegue daqui a duas semanas (face aos jogos de apuramento para o Euro2008), com o Boavista a enfrentar, frente à Naval (grande sensação deste início de campeonato), o primeiro de dois encontros consecutivos em casa. Será, portanto, uma boa oportunidade para a equipa técnica liderada por Zeljko Petrovic continuar a impor as suas ideias, esperando-se que a equipa surja cada vez mais confiante e coerente nos seus processos.

      VIVA O BOAVISTA!!!



publicado por pjmcs às 12:29
link do post | comentar | favorito
|

4 comentários:
De Portland a 1 de Outubro de 2006 às 15:56
Vitória saborosa contra os pasteis. Temos agora dois jogos em casa que são para ganhar!

Parabéns pelo blog!

FORÇA BOAVISTA


De gUI a 3 de Outubro de 2006 às 00:35
Ricardo Sousa
Nao digo que seja tudo, mas é practicamente tudo o que o BOAVISTA precisa para ganhar mtos dos jogos ate ao final do campeonato.


De The Revolution a 3 de Outubro de 2006 às 18:19
Mais um belo comentário teu... concordo com a análise, mas espera muito mais do Boavista para esta temporada.

E nem que seja apenas por agora, mas Roland Linz é nosso.


De Rui Amaral a 4 de Outubro de 2006 às 11:49
Eu ainda não sinto que o Boavista seja capaz de realizar bons jogos num futuro imediato. Apesar da vitória, continuo um pouco céptico. Se ganharmos os dois próximos jogos e, sobretudo, se fizermos exibições convincentes, as coisas poderão mudar de figura. Alguém é capaz de dizer, sem nenhumas reservas, que o Boavista fez um grande jogo no sábado?
Viva o Boavista!


comentar artigo

Próximos Jogos

Sp. CovilhãxBoavista

(25/01; 16:00) - 15.ª Jornada

artigos recentes

Boavista FC 2 - 0 Estoril

Santa Clara 3 - Boavista ...

Boavista FC 2 - 0 U. Leir...

SC Freamunde 2 - 0 Boavis...

Boavista FC 1 – 2 SC Beir...

BOAVISTA FC 0 - 2 GUIMARÃ...

Feirense 2 - 0 Boavista F...

Boavista FC 1 - 0 Oliveir...

BOAVISTA FC 1 - 0 LOUSADA

Boavista FC 1 - 1 D. Aves

Imagens Recebidas
Galeria de Imagens
arquivos

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Abril 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

ligações

pesquisar