Domingo, 3 de Setembro de 2006
Os desafios de Zeljko Petrovic

 Uma mudança de treinador traz sempre, invariavelmente, alterações na filosofia de jogo, nas concepções e nuances tácticas e nos métodos de trabalho. Depois da transição feita por Pedro Barny, que, como se viu em Alvalade, manteve os mesmos princípios e o mesmo esquema táctico adoptados durante toda a época: um 4-3-3 com um meio-campo forte e consistente, capaz de fechar os espaços ao sector intermediário do Sporting e de fazer a ligação para o ataque, apostando, sobretudo, na abertura do jogo para as alas.

Agora, Zeljko Petrovic, já com uma semana de trabalho e um jogo-treino (por sinal, bastante positivo), terá, daqui a apenas 6 dias, o seu primeiro desafio ao serviço do Boavista e logo um "clássico": a sempre "escaldante" recepção ao Benfica. Petrovic, treinador jovem mas bem conhecedor da escola holandesa, mostra ser, além de exigir trabalho e empenho total a todos os seus pupilos (tal como o anterior treinador do BFC), um adepto de um estilo de jogo pressionante, rápido e ofensivo (o que, se for conseguido com sucesso, se assemelhará muito ao futebol de "alta rotação" praticado pelo Boavista na época histórica do seu título nacional), um pouco nos antípodas do seu antecessor. Resta saber se tal postura da equipa em campo implicará uma alteração no sistema táctico. Para já, tudo indica que assim não será. Aliás, Petrovic já se referiu ao 4-3-3 com uma táctica que deve pressupor uma eficaz exploração das alas no processo ofensivo  (algo que, no futebol holandês é uma constante, sendo que o sistema táctico predominante - salvo algumas excepções - é, precisamente, o 4-3-3) No entanto, o facto de o novo técnico "axadrezado" ter, como o próprio afirmou, influências mediterrânicas e balcânicas nas suas concepções, pode levá-lo a "fugir" um pouco dos "ensinamentos" colhidos no "futebol das túlipas". Mas, voltando à ideia anterior, até pela disposição da equipa no jogo-treino de ontem, o 4-3-3, pelo menos contra o Benfica (adversário que, por contar com jogadores como Rui Costa - que necessitará de atenção especial por parte de um "vértice" mais recuado do meio-campo boavisteiro - e Petit, exigirá um sector intermediário consistente ao BFC), deverá ser o esquema eleito. Alterações de fundo no "onze" também não são previsíveis, tanto mais o meio-campo, em Alvalade, soube sempre fechar os espaços e desdobrar-se rapidamente na acção ofensiva (além de que Ricardo Sousa, o médio que poderia ameaçar a titularidade de Lucas, estará ausente por castigo), e, no sector defensivo, a ausência, por lesão, de Leo Tambussi poderá limitar as escolhas de Petrovic, que, assim, deverá manter o mesmo quarteto (pese embora o "calcanhar de Aquiles" do BFC frente ao Sporting ter sido o seu último reduto). A única mudança poderá ser a troca de guarda-redes (William por Jehle), face ao erro que o camoranês cometeu em Alvalade e que deu o terceiro golo ao adversário. Além disso, a utilização Jaouad Zairi, que, quando estiver na sua plenitude em termos físicos, será, com certeza, um forte candidato à titularidade, é pouco provável que aconteça já no sábado. Todavia, como o criativo extremo marroquino jogou ontem em nível frente ao Famalicão, a sua presença no "onze" contra o Benfica, embora improvável, não é um cenário completamente descabido.

Aliás, por falar em Zairi, a contratação do extremo ex-Sochaux acaba por trazer mais uma "dor de cabeça" (agradável, evidentemente) a Petrovic. Se, há cerca de um mês, o problema até era a escassez de soluções para as faixas (Grzelak era o único ala que mostrava regularidade e consistência; Zé Manel, nos jogos de preparação, esteve muito longe de deslumbrar e Hugo Monteiro, não obstante alguns excelentes pormenores, parecia ter na sua relativa inexperiência um óbice à sua utilização como titular durante a época - precisava, pelo menos, de um concorrente à altura, algo que Zé Manel não conseguia ser), agora, com a vinda de Zairi e a fantástica actuação de Zé Manel contra o Sporting, a questão é como encaixar Grzelak, Zairi e Zé Manel no "onze" ou qual dos extremos relegar para o "banco".

Uma das soluções seria mudar de sistema táctico, passando a jogar num 4-2-3-1 semelhante ao da época passada. Assim, Grzelak manter-se-ia na esquerda, Zairi jogaria no apoio ao ponta-de-lança (com a vantagem de, pelos seus 1,81 m de altura, ser um futebolista bastante razoável no jogo aéreo) e Zé Manel na direita (podendo trocar amiúde com Zairi, uma vez que gosta de fazer diagonais para zonas mais interiores de modo a ensaiar o remate ou a triangulação com o ponta-de-lança). Este novo figurino teria a grande vantagem de dar uma grande acutilância e criatividade ofensiva ao Boavista, conferindo espontaneidade e profundidade nos três corredores (esquerdo, direito e central), o que seria particularmente útil na maioria dos encontros em casa, perante equipas que se fecham, com uma grande densidade de jogadores, nos últimos 30 metros do terreno. No entanto, um dos grandes problemas da época passada manter-se-ia: a equipa perderia consistência a meio-campo (apenas o auxílio de Grzelak, que é disciplinado tacticamente e não hesita na hora de recuar para travar a iniciativa atacante do adversário, permitiria trazer algum equilíbrio), uma vez que deixaria de apresentar um vértice mais recuado. Contaria, somente, com dois médios - provavelmente, Kaz e Tiago - a jogar "em linha", o significaria mais dificuldades para Tiago, que teria de participar mais na transição para o ataque (como se sabe, o número 66 do BFC sente-se, claramente, mas à vontade se tiver dois médios muito próximos à sua frente, podendo endossar-lhes o esférico através de passes curtos, com risco mínimo de estes resultarem em perdas de bola comprometedoras), e retiraria a Kazmierczak a possibilidade de subir para as imediações da área adversária para, graças ao seu poderio no jogo aéreo, aproveitar as segundas bolas. E é importante recordar que, na temporada transacta, sempre que jogava em 4-2-3-1, o Boavista baqueou completamente frente a adversários fortes no sector intermediário e que jogavam com as linhas relativamente altas (como o Nacional, o FC Porto e o Benfica), visto que perdia a "batalha" a meio-campo e, desse modo, além de ver o adversário construir ocasiões de golo, não conseguia sair para o ataque em boas condições. Ou seja, a equipa ficava "partida".

Outra alternativa (mantendo Grzelak, Zairi e Zé Manel na equipa titular) pode passar por, sem abdicar do 4-3-3, jogar com Zairi numa das alas e passar Grzelak ou o próprio Zé Manel para médio-interior. No caso do polaco, como este é um jogador extremamente raçudo e bom tacticamente (sabe recuar para defender e fechar os espaços ao adversário), pode ser uma solução bastante profícua, tanto mais que tem vindo a ser testada por Petrovic, mas teria dois grandes inconvenientes: por um lado, a ala esquerda passaria a estar mais desguarnecida no aspecto defensivo (visto que nem Zairi nem Zé Manel são extremos muito habituados a recuar pela sua faixa para ajudar o lateral nas tarefas defensivas, ao contrário do que acontece com Grzelak) e Grzelak não é, propriamente, um médio com vocação para pautar o jogo e fazer aberturas, a longa distância, para as faixas (poderia, no entanto, efectuar um trabalho semelhante ao de Lucas em Alvalade, deixando para Kazmierczak os passes a 30, 40 metros).

A outra opção é prescindir de um dos três extremos, o que, por outro lado, abriria a possibilidade de Ricardo Sousa entrar no "onze". Nesse cenário, Zé Manel, apesar dos dois tentos é Alvalade, poderá ser estar em desvantagem, com o decorrer da temporada, relativamente a Zairi e a Grzelak, pela simples razão de que já ultrapassou os 30 anos, enquanto que Zairi e Grzelak ainda poderão atingir o auge das suas carreiras. Contudo, frente ao Benfica, o mais provável é que seja Zairi a ficar no "banco".



publicado por pjmcs às 13:12
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1 comentário:
De Pina a 4 de Setembro de 2006 às 16:08
Muito boa esta análise. Parabéns.


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