Domingo, 2 de Julho de 2006
Portugal X Inglaterra - Análise

Substituições: Simão por Pauleta, aos 64min; Hugo Viana por Tiago, aos 75min; Hélder Postiga por Luís Figo, aos 87min

E a história voltou a repetir-se! Portugal voltou a derrotar a Inglaterra nos quartos-de-final de uma grande competição internacional, desta feita no Mundial, outra vez na decisão através da marcação de grandes penalidades, em que Ricardo, verdadeiramente "endiabrado", defendeu três castigos máximos (e esteve muito perto de evitar o golo de Owen Hargreaves, único jogador inglês que conseguiu bater o guarda-redes português). Foi, principalmente por esse feito notável, mas, também, pela grande segurança evidenciada durante os 120 minutos de jogo (sobretudo nos perigosos cruzamentos tirados por Beckham e Gary Neville). No entanto, não seria justo limitar os destaques da partida a Ricardo, já que, não obstante não ter sido um encontro espectacular (nem seria expectável que fosse, dado o equilíbrio de forças entre as duas equipas e o facto de se tratar de uma partida a eliminar, em que qualquer erro poderia ser "fatal"), foi verdadeiramente notável o esforço de toda a turma lusa, perante uma Inglaterra, ao contrário do que constuma ser apanágio no futebol britânico, algo calculista na forma como entrou no jogo e que, após a expulsão de Rooney, praticamente abdicou da iniciativa ofensiva, fechando-se nas imediações da sua grande área. Miguel (neutralizou uma das "peças-chave" da formação saxónica, Joe Cole), Fernando Meira (imperial, relevando segurança no jogo aéreo e excelente sentido posicional), Ricardo Carvalho (apesar de ter denotado algum nervosismo na fase inicial da partida, acabou por realizar uma actuação ao seu nível, particularmente nas compensações às subidas dos dois laterais e, na parte final do prolongamento, ao conseguir sair a jogar e, assim, iniciar a acção ofensiva portuguesa), Ronaldo (durante a primeira hora de jogo, conseguiu romper, em bastantes ocasiões, pelo flanco esquerdo, acabou por baixar significativamente de rendimento quando passou a actuar no meio dos centrais adversários e, quando regressou às alas, desta feita à direita, a densidade de jogadores ingleses no sector mais recuado impedo-se de fazer mais "estragos"; mostrou grande serenidade e frieza na hora de dar a vitória a Portugal) e Petit (lutou imenso, sendo um dos principais responsáveis pelo bloqueio da dupla Lampard-Gerrard) foram os elementos que mais se evidenciaram num colectivo que primou pela coesão.

ANÁLISE TÁCTICA

De facto, como atrás foi dito, foi um encontro em que os espaços concedidos de parte a parte foram escassos, ou seja, as duas equipas encaixaram uma na outra. No entanto, Scolari derrotou Eriksson ao impedir que Lampard e Gerrard subissem no terreno, para movimentos de ruptura de entrada na grande área adversária, de modo a fazer valer a sua capacidade de remate para onas segundas bolas. Aqueles que são considerados os dois melhores médios da "Premiership" ficaram, em termos ofensivos, muito aquém daquilo que seria de esperar.

Perante a ausência de Deco e de Costinha, Scolari fez aquilo que se previa, lançando Tiago e Petit no "onze". A alteração mais significativa verificou-se numa "nuance" em termos de sistema de jogo: o habitual triângulo do meio-campo, com Costinha como "vértice" mais recuado e Maniche mais à frente, ligeiramente descaído para a esquerda, auxiliando Deco, que descai para a direita, na organização/distribuição de jogo, deu lugar a uma linha composta por Petit (que, contrariamente a Costinha, não é um médio vocacionado para actuar numa zona central mesmo à frente dos centrais, mas, sim, ligeiramente mais adiantado) e Maniche (jogando mais recuado e com menor liberdade no que respeita ao passe e na participação na acção ofensiva da equipa), com Tiago, que descaía para a direita quando Figo fazia os já habituais movimentos de flexão para zonas mais interiores (a fim de assumir a "batuta" do jogo ofensivo luso), incumbido de fazer a ligação ao sector atacante. No entanto, a inoperância do jogador do Lyon (talvez o elemento menos feliz da formação portuguesa no duelo de ontem) levou Scolari a lançar Hugo Viana, que, sendo um futebolista dotado de boa visão de jogo, se mostrou mais clarecido e seguro no passe que Tiago, gizando algumas boas aberturas para as alas. Minutos antes, logo a seguir à expulsão de Rooney, Pauleta saía para dar lugar a Simão, passando Ronaldo para o centro do ataque, numa solução defendida, por exemplo, por José Mourinho. Todavia, o extremo do Manchester mostrou não ter, claramente, rotinas de ponta-de-lança, pelo que Scolari acabou por repor uma avançado-centro de raiz, fazendo entrar Postiga e rendendo um exausto Luís Figo. Portugal, apesar do maior domínio na partida, sobretudo após a Inglaterra ter ficado reduzida a dez jogadores, acabando, inclusive, o prolongamento com os dois laterais bastante subidos e Ronaldo no apoio directo a Postiga, não conseguiu abrir zonas de penetração (Ronaldo, aliás, foi o único que conseguiu "furar" em algumas situações, na primeira parte), não obstante ter criado algumas oportunidades (destaque para o remate em jeito de Figo que Robinson travou com dificuldade e Postiga por pouco não chegou para a emenda), podendo ser apontadas três razões: pese embora a boa qualidade de passe de Hugo Viana (sendo que Petit e Maniche também conseguiram algumas boas aberturas), notou-se a ausência da criatividade, da espontaneidade e rapidez de movimentos e do excelente controlo de bola de Deco e do cansaço de Figo (que, na fase inicial da partida, parecia poder atenuar a falta do número 20 da Selecção), pelo que apenas Ronaldo e, por vezes, Miguel tinham capacidade para progredir e romper com a bola controlada; outro motivo prende-se com fadiga da equipa (que foi obrigada a assumir todas as despesas do encontro durante o prolongamento); por fim, há que referir o recuo das linhas defensiva e média inglesas (deixando apenas Crouch no meio-campo defensivo português) após o cartão vermelho (bem) mostrado a Rooney. A equipa portuguesa vivia, portanto, um dilema para descobrir a melhor solução para criar oportunidades flagrantes de golo, uma vez que, face à existência de duas "barreiras" defensivas (a primeira constituída por Lampard, Gerrard e Hargreaves e a segunda pelos dois centrais) que impediam as penetrações por zonas interiores, Portugal era obrigado a flanquear o jogo e a fazer cruzamentos (e, no jogo aéreo, Terry e Ferdinand são praticamente imbatíveis) ou, em alternativa, apostar na meia-distância (Maniche e Petit foram os que mais ensaiaram os remates de fora da grande área, tendo o primeiro estando relativamente próximo do golo), naquela que constituirá sempre, ainda para mais para uma formação tecnicamente evoluída como a portuguesa, uma solução de recurso e longe de ser a ideal. No entanto, convém referi-lo, se Portugal, perante 10 jogadores, não conseguia criar grandes desequilíbrios, a Inglaterra, nos antípodas da filosofia do futebol britânico, raramente saía para o ataque (e, quando o fazia, baseava-se em lançamentos de linha lateral efectuados por Gary Neville e na marcação de pontapés de canto). O desfecho que se verificou nas grandes penalidades acabou por ser um prémio merecido para a equipa que, dentro de um cenário de grandes cautelas tácticas e de respeito mútuo das duas equipas, acabou por ser mais ambiciosa.

Como se pode concluir, Sven-Goran Eriksson delineou numa estratégia conservadora na abordagem da partida com Portugal. O 4-4-2 da primeira fase (em que Crouch era o elemento mais adiantado da equipa aparecendo Owen e, depois, Rooney nas "costas") deu lugar a um 4-3-3 (por vezes, 4-5-1), com o reforço do meio-campo através da entrada de Hargreaves. Para as saídas para o ataque, Eriksson apostava  na potência de Rooney, lançado pelos passes de Beckham, pelos habituais movimentos de aproximação à grande área de Lampard e Gerrard e pela irreverência de Joe Cole. No entanto, enquanto o meio-campo português bloqueava Lampard e Gerrard, Beckham mostrava apatia e lentidão e Miguel anulava Joe Cole. Rooney, por isso, foi "presa" fácil para os dois centrais lusos. Hargreaves, sempre que, na acção ofensiva, procurava subir pelo flanco esquerdo, e o irrequieto Lennon (que substituiu Beckham), que criou alguns problemas a Nuno Valente, foram os únicos que criaram alguns desequilíbrios. Nem nos cruzamentos, claramente uma especialidade da equipa inglesa, a Inglaterra causava grande perigo, dada a segurança de Ricardo, de Fernando Meira e de Ricardo Carvalho. 

ÚLTIMAS NOTAS

O esforço da equipa portuguesa e o "sangue-frio" de Ricardo foram, provavelmente, as duas principais razões pelas quais Portugal conseguiu a extraordinária proeza de ontem. Num jogo muito táctico, como já foi referido, à semelhança do que acontece na maioria dos encontros de "mata-mata" (como diz Scolari) entre equipas de "top" mundial, o sinal mais acabou por ser, quase sempre, de Portugal, perante uma Inglaterra excessiva e surpreendentemente defensiva, mesmo tendo em conta a inferioridade numérica a partir, sensivelmente, dos 60 minutos. A "alma" desta equipa foi, uma vez mais, grande e a verdade é que, após o segundo lugar no Euro 2004, Portugal, aconteça o que acontecer, é uma das quatro melhores equipas do Mundo. Notável, principalmente para um país que participa apenas no seu quarto Campeonato do Mundo. Agora, frente à França (equipa bastante equilibrada, organizada e forte em todos os sectores, com a classe de Zidane, de volta aos seus melhores tempos, a ser a "cereja" no topo do "bolo"), tudo é possível e a final de Berlim poderá tornar-se uma realidade...

VIVA PORTUGAL!!! 



publicado por pjmcs às 19:47
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1 comentário:
De Luís Filipe Ramos a 3 de Julho de 2006 às 14:44
Viva Portugal!
Espero k consigamos derrotar a França!

Eu acredito que vamos ser campeões, mas se as coisas não correrem bem no jogo com a França, não temos razões para tristezas. Até porque ao estarmos nas meias-finais, temos direito a disputar o jogo de atribuição do 3º e 4ºlugares o que é sem dúvida uma grande honra.
Mas para já, O GRANDE SONHO CONTINUA...

VIVA PORTUGAL!!!


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